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Postado em 22 de Maio às 08h00

Automedicação, um costume perigoso

Um analgésico para a dor de cabeça, anti-inflamatório e relaxante muscular depois daquela atividade física mais intensa, descongestionante nasal e expectorante contra o resfriado... Para se verem livres desses sintomas, 85% dos brasilienses, a partir dos 16 anos, admitem fazer uso de remédios sem nenhuma prescrição médica ou farmacêutica, número que ultrapassa a média nacional de 79%. Os índices — levantados pelo Instituto de Ciência, Tecnologia e Qualidade (ICTQ) — revelam a forte cultura da automedicação: um caminho fácil para alívios imediatos, mas que pode trazer consequências mais graves do que se imagina.

O empresário Francisco Carlos Nascimento, 55 anos, atualmente afastado pelo INSS pelas condições de saúde, faz parte desse grupo que sente na pele e no corpo as adversidades provocadas pelo uso frequente e sem indicação dos remédios. Por anos, ele incluiu na rotina as incontáveis sessões de hemodiálise, enquanto aguardava na fila por um transplante de rim. De acordo com Francisco, foi justamente o excesso de anti-inflamatórios que desencadeou a falência renal aguda. “Eu era jogador de futebol e, para mim, era normal me automedicar. O que eu não sabia é que nasci com propensão para ter problemas nos rins e o anti-inflamatório agravou tudo”, explica.

O principal efeito negativo desse tipo de medicação é a redução da capacidade dos rins em filtrar o sangue. Um uso consciente e controlado em pessoas sadias não é prejudicial, diferente do que ocorre naqueles que têm insuficiência renal.

As hemodiálises foram interrompidas depois que o empresário conseguiu um transplante. No entanto, outros prejuízos à saúde foram desencadeados pelo mau uso de remédios. No braço em que foi feito o acesso para a máquina conseguir filtrar o sangue, ficaram as cicatrizes. O fêmur sofreu um desgaste ósseo e, por isso, foi necessário colocar uma placa de aço. A fragilidade do sistema imunológico favoreceu um derrame, que acabou provocando uma disfunção na visão. “Sem cobrir um dos olhos, acabo vendo tudo duplicado. São várias sequelas e uma lista de remédios que tomo todo dia. Mas agora com todo o cuidado médico. E da minha esposa, é claro”, brinca.

Casada com Francisco há mais de 30 anos, a professora Lucélia Camargo, 49, acompanhou todas as fases do marido. Mesmo entendendo os perigos do hábito da automedicação, revela: “Tenho dor de cabeça todo tempo e ando com o analgésico na bolsa”. Lucélia afirma que principal motivo para não procurar um médico, mesmo quando os sintomas persistem, é a dificuldade de atendimento na rede pública. “É mais fácil resolver por conta própria do que ficar horas esperando e correndo o risco de nem conseguir me consultar”, alega.

"Tratamentos"

Entre os fatores que contribuem para a cultura da automedicação, o Ministério da Saúde destaca a variedade de remédios e farmácias, a facilidade e comodidade na compra, além do grande número de informações médicas que podem ser pesquisadas pela internet, cujos “tratamentos” estão disponíveis nos balcões das farmácias. “Nada substitui o exame físico e o olhar técnico do médico. Se basear na consulta da ‘Doutora Internet’ é um perigo, porque tira a individualidade de cada caso. Com isso, o paciente pode extrapolar o limite do sintoma e achar que está com um câncer ou não dar a devida importância para algo que, de fato, é relevante. Além disso, o autodiagnóstico é o caminho para a automedicação”, alerta a médica Juliana Dytz, da Aliança Instituto de Oncologia.

É na variedade de remédios que não exigem prescrição médica para serem vendidos que a dona de casa Eliana Distretti, 41, encontra solução para as dores e desconfortos. “Vou torcendo para não ser nada grave, porque tempo para ir ao hospital, eu gasto apenas com meus filhos”, diz.

A filha mais nova, Vitória, 10, tem epilepsia e autismo, condições que demandam cuidados especiais. “No caso da Vitória, eu sempre consulto o médico, porque ela toma vários remédios controlados e a gente não sabe o efeito que outra medicação pode causar nela. Mas quando é comigo, sei o que funciona ou não. Se for algo novo e sem gravidade, um amigo ou alguém da família, que também já sentiu a mesma coisa, às vezes ajuda”, confessa.

Seguir indicações a partir da confiança nas pessoas próximas e não por médicos ou odontologistas está longe de ser hábito exclusivo de Eliana. De acordo com a pesquisa do ICTQ, 68% das pessoas que se automedicam seguem indicações de familiares. Os balconistas de farmácia também são usados como fonte para 48% desta parcela, seguido pelos amigos (41%), vizinhos (27%) e artistas de televisão — propaganda (16%). Os dados foram colhidos a partir de entrevistas feitas com 2.090 pessoas, maiores de 16 anos, de todas as regiões do Brasil, em 120 municípios.

Hábitos perigosos

Em uma outra amostragem, feita pelo Conselho Federal de Farmácia (CFF), avaliou-se o mesmo comportamento da automedicação, desta vez restringindo os índices para aqueles que ingeriram remédios por conta própria nos últimos seis meses. Dentro desse cenário, a pesquisa constatou que 77% dos brasileiros se automedicam. Desse montante, quase metade (47%) faz o uso pelo menos uma vez por mês e outros 25% revelaram que a frequência é diária ou de pelo menos uma vez na semana. Junto ao hábito, porém, vêm os perigos.

Além de poder agravar condições genéticas, como aconteceu com Francisco, a manipulação incorreta também pode contribuir para o desenvolvimento de uma doença. É o que aponta a especialista em farmacologia e professora da Universidade de Brasília (UnB) Noemia Urruth. “Não se pode fazer da exceção uma regra. Ao tornar frequente o hábito de automedicação para tratamento momentâneo do sintoma, a causa não é detectada. Isso é preocupante, porque pode retardar um diagnóstico e propiciar o agravarmento de uma condição de saúde.”

Entre os riscos mais frequentes desta cultura para a saúde estão, ainda, a possibilidade de intoxicação e resistência aos remédios. Um alerta emitido este mês pela Organização das Nações Unidas (ONU) revela que tomar medicação sem prescrição médica pode matar até 10 milhões de pessoas por ano até 2050, em todo o mundo. Atualmente, o número de óbitos por doenças resistentes aos medicamentos é de pelo menos 700 mil ao ano. Só no Brasil, entre 40% e 60% dessas infecções adquiriram resistência a medicamentos, segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Sabendo dessas possibilidades, o cartorário José Ailton Carneiro, 49, conta ter bastante atenção quando o assunto é saúde. “Tomar remédio por conta própria é coisa séria e tem que ser feito com responsabilidade. É raro, mas quando faço isso, geralmente é porque me machuquei jogando bola e tomo um anti-inflamatório. Se a dor persistir, vou ao médico e procuro sempre seguir à risca as orientações dele”, afirma.

Falhas na orientação também podem gerar consequências como dependência e reações alérgicas. No caso da assistente social Fátima Campos, 60, uma alergia a uma substância presente em várias medicações exige com que ela tenha atenção redobrada. Mesmo sabendo da condição, passou sufoco por conta de uma prescrição inadequada. “Pedi um remédio a uma pessoa na farmácia, detalhando minha alergia e os riscos. Ela me receitou um, garantindo que não continha nada que iria me prejudicar. Assim que tomei a medicação, resolvi ler a bula e tive que ir correndo ao hospital porque a pessoa da farmácia estava enganada. Tomei uma série de soros na veia para combater a reação alérgica e, por pouco, não tive uma hemorragia interna.”

De acordo com a Lei Federal nº 13.021, de 2014, é o farmacêutico quem possui a responsabilidade técnica pelos estabelecimentos, cabendo a ele fazer as devidas orientações aos pacientes que procuram por remédios sem necessidade de prescrição médica. Por esse motivo é que se torna obrigatória a presença do profissional em tempo integral. Mesmo com a legislação, para Fátima, ainda há muito o que avançar. “É preciso colocar pessoas mais preparadas, com experiência. O papel do farmacêutico é importante e, por isso, tem que ter credibilidade”, opina.

Fonte: Correio Braziliense

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